domingo, 18 de julho de 2010

E o sul de Mato Grosso foi às armas!

Hoje temos um ótimo texto sobre a participação do Mato Grosso enviado por Luiz Eduardo Silva Parreira que nos traz mais informações sobre essa história tão pouco divulgada. Boa leitura!

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E o sul de Mato Grosso foi às armas!

09 de Julho é feriado em São Paulo. É quando se comemora o início da
Revolução Constitucionalista de 1932. Tudo pára em respeito aos que
lutaram e tombaram nesse conflito, que não visava à separação de São
Paulo do Brasil (como difundiu a propaganda difamatória de Getúlio
Vargas), mas o contrário. Irrompeu-se a luta armada buscando uma nova
Constituição para o país, para tirá-lo do atraso, da insegurança
jurídica e do despotismo federal pós Revolução de 30.

O coração bandeirante ainda bate forte, 78 anos depois, em razão dos
feitos de seu povo que, em alguns pontos, antecipou os acontecimentos
que ocorreriam quase dez anos depois, durante a Segunda Guerra Mundial
(1939-1945), na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos da América: toda a
economia voltada para a guerra; mulheres substituindo os homens em
tarefas industriais, pois estes estavam nos campos de batalha e o mais
emocionante, a mobilização voluntária de toda a sociedade para o
conflito. Em três dias, mais de 30.000 homens se alistaram nas
fileiras paulistas!

São Paulo, em defesa da Constituição, produziu, improvisou e adaptou
de tudo: granadas, capacetes, munições, morteiros e canhões. Uma
imensa rede de civis auxiliava os soldados, não deixando que nada lhes
faltasse, até o limite dos suprimentos, cuja escassez foi um dos
motivos de os paulistas terem perdido o conflito. Senhoras cosiam
meias e toucas, pois era julho, inverno. Escoteiros levavam
correspondências. E, é justamente, um escoteiro o mais jovem soldado
morto em combate na Revolução de 32, ALDO CHIORATTO, de 9 anos e meio
de idade, morto durante bombardeio aéreo em Campinas.

Entretanto, poucos se lembram que não só São Paulo foi às armas. O sul
do Mato Grosso também foi! Campo Grande, Bela Vista, Ponta Porã, Porto
Murtinho, Ladário, Três Lagoas, Paranaíba, Coxim enviaram tropas ou
foram palcos de combates nos quais até aviões foram utilizados em
ataques às tropas adversárias.

Alguns historiadores chegam a citar mais de 3.000 homens envolvidos
diretamente nas lutas no território do Estado de Maracaju, nome
adotado pelo sul do Mato Grosso durante o conflito. Era o sonho
divisionista que se concretizava por via das armas e que durou
enquanto duraram suas munições: três meses.

E justamente por conta da necessidade de abastecimento; em virtude de
o porto de Santos ter sido bloqueado por navios de guerra leais a
Vargas, é que restou como a única alternativa paulista de
abastecimento e escoamento, a utilização da antiga rota de suprimentos
das terras localizadas no centro da América do Sul: Rio Paraguai - Rio
Paraná - Estuário do Prata - Oceano Atlântico, cujo principal ponto
logístico possível de controle pelos constitucionalistas era a cidade
de Porto Murtinho.

Para lá se dirigiu a famosa Coluna de Bronze, formada por
constitucionalistas do sul do Mato Grosso, que utilizaram dois canhões
de montanha franceses Schneider, de 75 mm. Como parte do suporte
paulista ao avanço de seus aliados mato-grossenses para tomar a
cidade, enviou-se um caça Curtiss Falcon, que atacou as tropas
federais nos arredores de Porto Murtinho. Dias antes, os paulistas já
haviam bombardeado a Base Naval de Ladário, com o mesmo tipo de
aeronave.

As tropas legalistas, com mais de 1.200 combatentes, contra-atacavam
os constitucionalistas da Coluna de Bronze com pesado fogo dos canhões
e morteiros do Monitor Fluvial Pernambuco. Segundo cronistas da época,
como Umberto Puiggari, a batalha por Porto Murtinho a adjacências
deixou mais de 300 mortos e a cidade parcialmente destruída.

Já as forças que combateram em Três Lagoas e Paranaíba, conseguiram
impedir que reforços do norte do Mato Grosso e Goiás cercassem as
forças bandeirantes. J. Barbosa Rodrigues comenta que ali também os
combates foram ferozes.

E em território paulista, no teatro conhecido como Frente Sul, forças
do Batalhão Taunay, de Campo Grande e do 11º Regimento de Cavalaria,
de Ponta Porã, lutaram para impedir que tropas vindas do sul do país
entrassem em São Paulo.

Com efeito, 09 de Julho é uma data que também afetou a vida dos
habitantes das terras hoje sul-mato-grossenses. Segundo o
ex-governador de Mato Grosso do Sul, Wilson Barbosa Martins, o clima
na cidade de Campo Grande era de empolgação. Os professores iam dar
aulas de farda e capacete. Mais de 800 homens se apresentaram para
alistamento num único dia.

Os combatentes do sul do Mato Grosso eram em sua maioria,
soldados-cidadãos: homens comuns, de diversas profissões. Havia
brasileiros e paraguaios; descendentes de japoneses, libaneses e
alemães; índios, negros, brancos, pardos. Foi a nossa pequena guerra
mundial, onde todos os povos que aqui moravam pegaram em armas para a
defesa da legalidade. Como lembra Puiggari, a insegurança jurídica no
sertão sul do Mato Grosso era tamanha que até juízes eram intimidados
com os famosos ‘saltos’: sua transferência de comarca quando
incomodava algum apadrinhado do governo getulista.

Aqui também se lutou bravamente!


Mas, a superioridade numérica governista era evidente e depois de três
meses de combates, São Paulo capitulou. No início de outubro de 1932,
os paulistas cessaram fogo... mas, o sul do Mato Grosso não. Aqui a
luta durou até o fim daquele mês, quando a cidade de Bela Vista se
entregou ao Tenente-Coronel Francisco Gil Castelo-Branco.

E diferente de São Paulo, lamentavelmente em Mato Grosso do Sul,
especialmente em Campo Grande, pouca coisa existe hoje que lembre
estes feitos. Daquela época ainda estão em pé (e não se sabe até
quando) o prédio do Quartel-General, na Avenida Afonso Pena, de onde
partiram as primeiras ordens do General-de-Brigada Bertholdo Klinger,
Comandante Militar do Movimento; a loja Maçônica da Avenida Calógeras,
que sediou o Governo do Estado de Maracaju, tendo como Governador o
Dr. Vespasiano Martins; o canhão Schneider de 75 mm na frente do 2º/9º
Bsup, que acompanhou a Coluna de Bronze; o quartel do 18ºBlog, que
sediou o 18º BC, cujos soldados lutaram bravamente em diversas
frentes. Será que tais monumentos não mereceriam ao menos uma placa
indicativa? Fazendo justiça ao prédio maçônico, ali há uma, colocada
por iniciativa própria da entidade. Mas, e nos demais pontos?

Enfim, mais um 09 de Julho em São Paulo, quando os paulistas honram
seus combatentes-cidadãos. Mais um 09 de Julho em Campo Grande, que
parece fazer questão de esquecer sua história de pouco mais de 100
anos, por descaso.



Luiz Eduardo Silva Parreira é Advogado (luizeduardo@parreira.adv.br)

3 comentários:

  1. Que revelador! Quantas informações interessantes!
    Parabéns e obrigado por compartilhar! =D

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  2. Obrigado por compartilhar valiosíssimas informações.
    Realmente, poderia tal feito ser comemorado em MS.

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  3. Como Campo Grandensse e Sul Mato Grossense sinto orgulho por meu estado sempre ter lutado pelo melhor para este país seja batalhando ferozmente na Guerra do Paraguai ou seja lutando até não poder mais juntamente com os paulistas com os quais sempre nos identificamos muito até hoje pelo fato de que a maioria da população de nosso estado surgiu da migração paulista.

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