domingo, 6 de novembro de 2011

Ex-Libris do jornal O Estado de São Paulo em 1932

Tive recentemente a alegria de receber do escritor Paulo Rezzutti um jogo com os três Ex-Libris do jornal O Estado de São Paulo desenhados por José Wasth Rodrigues para angariar fundos para os órfãos e viúvas da causa constitucionalista. Reproduzo abaixo uma matéria escrita pelo próprio Paulo sobre estes raros Ex-Libris e postada originalmente em seu blog.

Paulo Rezzutti, um apaixonado pela história de São Paulo é o autor do livro Titila e o Demonão - Cartas inéditas de D. Pedro I a Marquesa de Santos, leitura deliciosa e obrigatória para os amantes da História do Brasil.

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Durante a Revolução Paulista de 1932, o jornal “O Estado de São Paulo” lançou uma campanha inusitada para levantar fundos para os órfãos e viúvas da causa constitucionalista: leilões de livros através de suas páginas.

A campanha funcionava da seguinte maneira: Os doadores enviavam os livros para o jornal, pessoalmente, pelo correio, ou ainda, para os que moravam no interior, por meio do Comando Revolucionário de sua cidade.
Cada livro recebia um código numérico, e uma listagem das obras era publicada numa seção especial do jornal. Os interessados pelos títulos anotavam o código do livro desejado e mandavam os lances por carta, ou deixavam um bilhete na portaria do jornal. Arrematava a obra quem desse o maior valor. Não raro, os livros doados já seguiam com um lance inicial do próprio ofertante.

Examinando as ofertas, podemos ver um acervo bastante variado. O arroz de festa, ofertado em quase todos os leilões, era a coleção “Thesouro da Juventude”. Mas também foram leiloadas obras raras, como primeiras edições dos Padres Antonio Vieira e Manoel Bernardes, um “Os Sertões” autografado por Euclides da Cunha e obras raras francesas em primeira tiragem de Voltaire, Rousseau, Montesquieu, entre outros.

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Algumas cartas que acompanhavam os livros eram assinadas por seus doadores, como os escritores Paulo Setúbal e Cassiano Ricardo, o Cônsul da Lituânia em São Paulo, “pelos jovens” e “pelas jovens” paulistas, cujos pais certamente ditaram os bilhetes de doação – escritas em corretíssimo português por mãos ainda não muito acostumadas a pegar em um lápis. Outras eram subscritas por: “Um Patriota”, “Paulista Consciente” e diversos outros pseudônimos.

O jornal contratou o pintor José Wasth Rodrigues para confeccionar o ex libris dessa campanha. Quem arrematasse uma das obras podia mandar uma carta para a redação, com um envelope já selado para resposta, informando qual livro havia adquirido. O responsável pelo setor enviava o ex libris correspondente dentro do envelope recebido.

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Os ex libris foram confeccionados em três tamanhos: 5 cm X 9,4 cm, 7,4 cm X 12,5 cm e 11,4 cm X 19,4 cm, cada um relativo a um tamanho de livro: in-oitavo, in-quarto e in-fólio. Na margem superior, lê-se em letras pretas a frase: “LIVRO DOADO EM BENEFÍCIO / DOS ORPHAMS DA REVOLUÇÃO”. Na margem inferior, os dizeres: “POR INTERMÉDIO DO / O ESTADO DE S. PAULO / Nº…………..” No centro do ex libris, um retângulo amarelo tendo, desenhado em preto, um garoto de pé, vestido com uniforme de marinheiro, com um espadim de um lado da cintura e do outro um tambor, que segura com a mão direita um mastro feito com bambu. Amarrado na ponta do mastro, um pedaço de pano esvoaça por cima do menino; nele constam os seguintes dizeres: “SI FOR PRECISO / NÓS TAMBÉM / VAMOS!”. Na lateral esquerda do garoto, ainda dentro do campo amarelo, a inscrição: “EX- / LIBRIS”.

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José Wasth Rodrigues é também o autor do célebre Ex-Libris do jornal O Estado de São Paulo.
O ex-libris tomado como logo prestava uma homenagem ao primeiro jornaleiro paulistano, o francês Bernard Gregoire, que em 1876 passou a andar vagarosamente com o seu cavalo pelas estreitas ruas de São Paulo de Piratininga, tocando sua corneta e anunciando a venda da edição do dia de “A Província de São Paulo”, por 40 réis. O jornal “A Província” viria, anos mais tarde a se transformar em “O Estado de São Paulo”.

6 comentários:

  1. Oi Ricardo,

    Só uma correção, o Gregoire não foi o primeiro jornaleiro paulista, e sim o segundo. O primeiro foi o Batuíra, que distribuia a pé e a cavalo o jornal "O Correio Paulistano".

    O Estadão gosta de falar que é o primeiro porque ele representa o jornal, mas é uma inverdade e injustiça contra o Batuíra.

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  2. Que coisa maravilhosa essa série de EX-LIBRIS. José Wasth Rodrigues era mesmo um gênio!

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  3. Ricardo, a história do jornal O ESTADO DE SÃO PAULO se confunde com a história da imprensa no Brasil. Durante o período de luta pela Constituição O ESTADO funcionou como aglutinador de idéias e ideais numa atitude corajosa e brilhante, que deve sempre ser lembrada. Mais uma bela matéria! Um abraço do Coimbra.

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  4. Douglas, longe de defender o Estadão, ainda mais depois da modernização porca que eles fizeram com o ex libris deles, existe uma tênue diferença entre o Batuíra e o Gregoire. O Batuíra distribuia o Correio Paulistano aos assinantes, ele não saia, até onde eu cheguei nas minhas pesquisas, a vender o jornal para o público da rua, ao contrário do Gregoire, que saia com o cavalo tentando vender o jornal para os passantes.

    Abraço, Paulo Rezzutti

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  5. Carlos Vasconcelos8 de novembro de 2011 01:21

    Caro Ricardo, parabenizá-lo pelas matérias deste blog já se tornou uma redundância! Excelente o resgate histórico!

    Quanto ao "Estadão", é fato que a História do "O ESTADO DE S. PAULO" se confunde com a História de São Paulo em momentos muito importantes, desde o século XIX.

    Não bastasse a excelência do jornal, o exílio imposto pela ditadura Vargas a boa parte da diretoria do "Estadão" em 1932, somado à implacável e abjeta perseguição que a mesma ditadura caudilhista empreendeu contra a família Mesquita, por si só, já bastariam para entronizar "O ESTADO DE S. PAULO" no que poderíamos chamar de panteão da imprensa Paulista!

    Grande abraço!

    Carlos Vasconcelos.

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  6. O Míniomo que podemos fazer é cumprimentar o amigo por seu notável trabalho no resgate da História de São Paulo...!!!!!!!!
    RMG Arte Stúdio & Heráldica

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