quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O Mistério do Casaco de José Wasth Rodrigues

Neste mês de fevereiro o blog completa 2 anos de existência! Para comemorarmos juntos, durante todo o mês trarei algumas postagens especiais que certamente agradarão aos fiéis leitores desta "trincheira paulista".
A primeira delas é um excelente texto do pesquisador de arte Alex Ribeiro, que conta a história da amizade entre José Wasth Rodrigues (1891-1957) historiador e pintor, autor dos Brasões de São Paulo, e um dos grandes mestres da Pintura do século XX Amedeo Modigliani (1884-1920) - história esta resgatada por meio de um...casaco.

Agradeço ao Alex Ribeiro pela colaboração com o blog e tenho certeza que todos os leitores também farão o mesmo!

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"O Mistério do Casaco" por Alex Ribeiro.

Esta curiosa história envolvendo um casaco e um echarpe, tem início quando o jovem paulistano, José Wasth Rodrigues, recebe em 1910 como prêmio do Governo de São Paulo, pelo sucesso de sua exposição individual, uma bolsa de estudo na Academia Julian e posteriormente na Escola de Belas Artes de Paris. Permanece na França até 1914, quando é deflagrada a 1ª Guerra Mundial e neste período, numa aristocrática avenida em Montparnasse, tem o privilégio de dividir o quarto e pobreza com um italiano, até então, ilustre desconhecido, Amedeo Modigliani.

Quando do seu retorno ao Brasil, Modigliani lhe presenteia com algumas de suas obras, que até o momento se julgavam extraviadas, história esta relatada em crônicas do poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade, publicadas no Jornal Correio da Manhã (1953) e no Jornal O Estado de São Paulo (1957 e 2001). Informação também confirmada no prefácio de José de Barros Martins, da Martins Editora, no livro “Tropas Paulistas de Outrora”, de Wasth Rodrigues. Monteiro Lobato publica em seu livro “A Barca de Gleyre”, cartas que confirmam que após o final da primeira guerra, Wasth retorna várias vezes a Paris, inclusive em sua companhia,entre outros motivos, para ilustrar, com suas aquarelas, o livro “Uniformes do Exército Brasileiro – 1730/1922”, de Gustavo Barroso, assim como visitar velhos amigos.

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Numa destas ocasiões, Modigliani pinta o retrato do amigo brasileiro e não esconde sua admiração pelo casaco que Wasth estava usando, que em retribuição lhe oferece como presente, já sabendo de sua paixão pela moda, conforme alguns depoimentos, inclusive o de Pablo Picasso, que chegou a declarar: “ Se alguém tinha bom gosto para se vestir em Paris no início do século XX, esse alguém era Modigliani”. Este episódio também é citado na crônica “O Paletó de Modigliani” do poeta Paulo Bomfim, publicado em seu livro “Janeiros de Meu São Paulo”. Alguns anos depois, o próprio Wasth confidencia a Barros Martins, sua satisfação ao ver seu antigo casaco vestindo seu amigo Modigliani, em seu único auto retrato, atualmente no acervo do Museu de Arte Contemporânea de São Paulo (MAC/USP).

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Após quase cinco anos de pesquisas no Brasil e Europa, para buscar a autenticidade de uma destas obras de Modigliani trazidas por Wasth Rodrigues, que hoje intitulo “Velieri Livorno” e comprovar a amizade entre os dois, deparei-me com a obra catalogada intitulada, “Homem Sentado Apoiado em uma Mesa”, datada de 1918, pertencente a uma coleção particular, onde podemos ver o mesmo casaco e echarpe, também usado por Modigliani em seu autorretrato, sustentando minha tese de ser o retrato de José Wasth Rodrigues, constatação que surpreendeu a própria família, que acreditava que havia sido destruído, atendendo a um pedido de sua mãe, Dona Antonia, que não teria gostado de ver seu filho retratado com traços alongados, a exemplo do queixo e também por lhe parecer inacabada, faltando inclusive pintar os olhos.

A família Wasth Rodrigues, através do Dr. Eurico, sobrinho de J.W.R. e irmão do também ilustrador, Ivan Wasth Rodrigues, ao ser entrevistado pela Revista Época, sobre o “Mistério do Casaco”, matéria publicada em 09/01/12, disse nunca ter visto o mencionado retrato, porém afirma que se tivesse que retratar o “tio Zequinha”, como carinhosamente era conhecido pela família, o faria exatamente como o “Homem Sentado Apoiado em uma Mesa” retratado por Modigliani.

A história do casaco e echarpe teria tudo para ficar esquecida no passado, mas eles estão servindo para aquecer a amizade entre Brasil e Itália e agasalhar dois grandes artistas do século XX, além de, juntamente com o apoio da ciência, proporcionar em breve o resgate de uma entre tantas outras obras extraviadas do gênio da pintura Amedeo Modigliani!

Abaixo a obra de Modigliani que está em processo de autenticidade, intitulada “Velieri Livorno”, responsável pelo inicio das pesquisas de Alex Ribeiro.

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Uma das primeiras versões do Brasão da Cidade de São Paulo por J.W.R. que sofreu modificações até o desenho que é usado atualmente.

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2 comentários:

  1. UMA TRISTEZA VER QUE WASTH RODRIGUES TEM SEU LEGADO ESQUECIDO NA SOMBRA. QUANTOS BRASILEIROS CONHECEM SEU NOME?

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  2. Na década de 1980 a editora Itatiaia, na coleção Reconquista do Brasil, publicou o "Documentário Arquitetônico" de Wasth Rodrigues, obra que interessa não só aos arquitetos e estudiosos de nossa história arquitetônica, mas aos interessados na cultura brasileira.
    Não sou especialista, mas creio que foi a última vez que publicaram uma obra dele, não?

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