sexta-feira, 6 de julho de 2012

Alberto Goulart - 4º Batalhão de Emergência da Força Pública

Uma das possibilidades que este blog me trouxe, foi a de conhecer pessoas e histórias da revolução que não estão nos livros - mas que são a base do Movimento Constitucionalista. Abaixo reproduzo um email enviado pelo Sr. Erivelto Goulart com a história de seu pai, que mostra a admiração de um filho pelo pai combatente. Este é o verdadeiro legado daqueles dias de 1932.

Independentemente dele ser meu pai e do imenso carinho que envolve este tipo de relação pai-filho, posso dizer que o desprendimento dele, bem como o seu imenso idealismo, são algo muito significativo na vida de uma pessoa, coisas hoje muito raras. Digo isto pois ele, com 29 anos, solteiro, farmacêutico, vivendo na época em Olímpia, também na região de São José do Rio Preto, alistou-se voluntariamente, foi para São Paulo onde permaneceu uma semana em rápido treinamento, recebeu fardamento e o equipamento possível, foi para Joanópolis onde permaneceu até o fim da Revolução.

Mesmo, muito mais tarde, tendo direito a uma pequena e modesta "aposentadoria ou ajuda de custo" (não sei definir exatamente o que era), ele sempre dizia que não achava isto justo pois a sua participação tinha sido essencialmente pelos seus ideais e pelos ideais do Movimento Constitucionalista e portanto não quis nada em troca pois como sempre dizia, ideal não se vende, não se compra, não se comercia. Viveu uma vida modesta, mas como um excelente exemplo a servir de referência. Durante a Revolução chegou ao posto de Segundo Tenente, condição esta em função da sua formação, qual seja, Oficial de Farmácia, título obtido em 1925 em São Paulo. Estou aqui "a postos" e estou muito feliz pelo seu envolvimento com isso na tentativa de, ao mesmo tempo em que a participação dele na Revolução pode ser registrada por você, também na possibilidade de identificar os seus dois companheiros que estão com ele na foto. Por enquanto é isso. Obrigado e um grande abraço.
Erivelto Goulart, professor da Universidade Estadual de Maringá."

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Como participei da Revolução Constitucionalista de 1932.

No fim do mês de julho de 1932 residindo em Olímpia, apresentei-me voluntariamente à mobilização de um corpo de revolucionários para prestar serviços à causa da Revolução. Foi então organizado um batalhão de recrutas ao qual me incorporei. Este batalhão passou a chamar-se 4º Batalhão de Emergência da Força Pública do Estado de São Paulo. Seguimos para São Paulo por estrada de ferro e fomos alojados em um Grupo Escolar, situado na Avenida Paulista. Lá recebemos fardamento, armas e outras munições. Em seguida, nos dirigimos também por via férrea para Bragança Paulista, onde pernoitamos. Após, rumamos para Bandeirantes na estação seguinte, permanecemos nesse local, por uns dois ou três dias. Nessa permanência tomamos contato com os habitantes de Camanducaia, cidade mineira próxima a Bandeirantes. Essas pessoas nos receberam amistosamente, cercando-nos de gentilezas, com ofertas de alimentos, como carne, leite, queijos, doces, etc.

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Seguimos depois para Joanópolis, passamos por Atibaia e Nazareth; nessas cidades paulistas fomos carinhosamente recebidos por seus habitantes. Em Joanópolis, para onde seguimos em caminhões, nos fixamos até o final da Revolução. Essa cidade, como outras, nos hospedaram com um tratamento mais alegre, amável e generoso, que nos pode dar esse maravilhoso povo paulista.

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Em Joanópolis, próxima com as divisas de Minas Gerais, a situação bélica militar decorreu calma, sem combates, devido à inexistência de forças, chamadas “legais”. Entretanto, um fato lamentável aconteceu nesse espaço de tempo, numa colina próxima da cidade, um pelotão de soldados fazia exercícios de lançamento de granadas de mão, comandado por um capitão que ao lançar uma granada, explodiu-lhe na mão, ocasionando sua morte.

Como aconteceram diversos acidentes, com pequenos ferimentos e houvesse um corpo médico adido ao nosso batalhão fui designado pelo comando para ser farmacêutico-enfermeiro. Nessa condição, fui promovido ao posto de segundo tenente, quando antes era apenas soldado. Fiquei alojado na Santa Casa local, onde atendia curativos em ferimentos não considerados graves. Justifico essa situação pela posição profissional de farmacêutico, com prática de enfermagem, e assim sendo não participei de nenhum combate no campo de guerra.

Terminada a Revolução, com a rendição das Forças Constitucionalistas, regressamos as nossas cidades de origem. Na passagem por Campinas, onde se encontravam as forças do Governo de Getúlio Vargas, fomos despojados de tudo que levávamos para casa, fardas, capacetes, fuzis, balas e outros acessórios de soldados. Aqui fica num relato simples o que foi nossa atuação na Revolução de 1932, cujos ideais almejados era o de uma constituição liberal e democrática em um governo legitimamente eleito pelo povo.

Alberto Goulart.
Monte Aprazível, 1982.

4 comentários:

  1. Belo relato de mais um guerreiro idealista.
    Nós os temos,muito mais do que se imagina.

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  2. Parabens sr.Erivelto Gulart, seu pai foi um guerreiro exemplar,um PAULISTA DE BRILHO.
    VIVA SÃO PAULO E SALVE 9 DE JULHO
    ABRAÇO. Gonçalo

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  3. Essa estória, contada pelo meu avô, foi bastante comovente. Eu não tinha essa dimensão da sua participação. Sinto me honrado em saber que tive um avô tão idealista e que punha os anseios de um povo a frente de sua própria vida!!!! Sinto orgulho por isso.
    Renato Goulart Jasinevicius

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  4. MEU AVÔ PATERNO ESTEVE NA REVOLUÇÃO, NA FRENTE DE COMBATE EM SÃO LUIS DO PARAITINGA, EM 2010 TIVE A OPORTUNIDADE DE CONHECER O "TÚNEL DA MANTIQUEIRA", LOCAL QUE MEU AVÔ CONTAVA TER HAVIDO ACIRRADOS COMBATES COM MORTES E MAIS MORTES DOS DOIS LADOS, FORAM HOMENS HEROIS, EXEMPLOS DE BRASILEIROS, EXEMPLOS DE CORAGEM E DE DESTEMOR, D-US ABENÇOE VOSSO PAI E O ACOLHA NO LOCAL DESTINADO AOS HEROIS, MEU AVÔ TAMBÉM JÁ DESCANSA NA ETERNIDADE.

    BRASIL !!!!!!!!!!!!!!!

    ELVIS DE JESUS
    INSP REG DE GCM
    SJCAMPOS SP

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