sexta-feira, 11 de outubro de 2013

1o Tenente Milton da Silva Rodrigues - 4a Cia. do 1o B.E. do M.M.D.C.

De vez em quando nos deparamos com alguns lotes de material da Revolução de 1932 que, através de mãos cuidadosas com a nossa história, acabam chegando aos dias atuais intactos e trazendo informações inéditas sobre a epopéia paulista. Este é o caso dos objetos e documentos do então 1o Tenente Milton da Silva Rodrigues - 4a Cia. do 1o Batalhão de Engenharia do M.M.D.C.

São inúmeras peças, incluíndo um longo e detalhado Diário de Campanha, que contam a história do que se passou em Villa Queimada na região de Queluz entre julho e outubro de 1932. Certamente um dos locais mais disputados pelas as tropas federais e paulistas no palco de operações da frente Norte.

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Milton Camargo da Silva Rodrigues (1904-1971), paulistano, Engenheiro Civil diplomado pela Escola Nacional de Engenharia do Rio de Janeiro. Foi Professor Catedrático de Estatística na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e, além da responsabilidade da docência e pesquisa próprios do seu cargo, chefiava o Departamento de Estatística da Faculdade.  Recebeu entre outras as medalhas de Cavaleiro da Legião de Honra e de Oficial da Ordem Nacional das Palmas, ambas francesas. É um dos signatários da carta que dava solidariedade ao Cel. Euclydes Figueiredo para o prosseguimento da luta armada "em qualquer lugar do Brasil onde fôr ella deslocada". A carta foi assinada em Aparecida no dia 1o de outubro de 1932.

Um dado da maior relevância é que o 1o Tenente Milton era irmão do voluntário Menaldo da Silva Rodrigues, da 1a Cia. do 1o Batalhão da Liga da Defesa Paulista - morto em combate no dia 12 de setembro ao fazer uma patrulha de reconhecimento no setor de Cunha. Menaldo era filho de d. Maria Magdalena Camargo da Silva Rodrigues e do Dr. Antonio Gomes da Silva Rodrigues. Seus irmãos eram Agalma, Aurora, Adelfa, Amaryllida, Marbanio, Megalvio (ambos do 1o Batalhão da L.D.P.) e Milton. Toda a família prestou serviços á causa constitucionalista.

Agradeço ao Dr. Eduardo Sales Pitta e ao Sr. Milton Orcesi - neto do combatente, ambos da 2a Delegacia de Repressão a Homicídios do DHPP de São Paulo, por entrar em contato comigo e proporcionar o acesso a esse fantástico lote de documentos. Em um futuro próximo vamos publicar aqui no blog a íntegra do Diário de Campanha - para que todos possam conhecer essa história. Abaixo trago algumas imagens do material e uma breve explicação sobre cada item.

Capacete de aço usado pelo 1o Tenente Milton da Silva Rodrigues.

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Sensacional estandarte da 4a Cia. do 1o B.E. do M.M.D.C.
Particularmente eu nunca vi nada sequer parecido com esta bandeira em meus anos de pesquisa e coleção!
A bandeira traz os nomes dos mortos em combate da 4a Cia: Agenor Alves Meira, tombado em 10 de agosto de 1932 no combate da Estação de Engenheiro Bianor; Benedito Gama Ricardo e João Tavares Filho - também feridos mortalmente em Bianor. HERÓIS PAULISTAS CUJOS NOMES ESTARÃO ESTAMPADOS PARA A ETERNIDADE NO ESTANDARTE DA 4a CIA.

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Diário de Campanha, detalhado com personagens e episódios da luta no Setor Norte.

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Dois trechos que valem a leitura.

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"Amanhecia, quando abordamos os arredores de S.Paulo, já animados pelos grupos de operários que se dirigiam aos seus serviços. Íamos chegando na Penha. De um lado da estrada surge um homem que avistou a nossa triste caravana. É um operário, de cestinha na mão. Avança até a beira da estrada, tira respeitosamente o chapéu, como se visse passar um enterro e, com a mão erguida e os olhos brilhantes de um entusiasmo doloroso, brada desesperadamente: ´Viva São Paulo´. Eu e o Caldas nos entre-olhamos, ambos com vontade de chorar."

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Acima e abaixo alguns esquemas das disposições das trincheiras em Villa Queimada e nos célebres morros ao redor. São documentos inéditos que nos permitem visualizar claramente aquele momento da história.

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"À nossa frente, lá adiante, Lavrinhas nos esperava para nova série de argruras. Atrás de nós, Vila Queimada ao abandono. Quase destruídas as suas velhas habitações. Os seus morros queimados pelo incêndio das granadas. Os vales enegrecidos pelo fogo eram como bôcas desdentadas gritando contra a maldade capaz de inventar uma manhã daquelas. Mais adiante na derradeira oração do Morro Verde, pedindo a primavera de Paz entre os homens de boa vontade.
Mas os homens eram de má vontade..."
Palmares pelo avesso, Paulo Duarte.

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Documentos do batalhão e Boletins de Operações, trazendo o dia-a-dia operacional da 4a Cia. do 1o B.E. do M.M.D.C.

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Uma belíssima curiosidade: A "chapinha" do Sr. Olympio Vieira de Castro, futuro sogro do Tenente Milton. Junto ao distintivo, um raríssimo exemplar do documento que identificava o voluntário.

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Para fechar a matéria em homenagem ao dia de amanhã, um Hino impresso à Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Em 1932 durante os conturbados dias da revolução, Nossa Senhora foi a protetora dos soldados paulistas e brasileiros.

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3 comentários:

  1. UM TRABALHO IMPORTANTÍSSIMO DO RICARDO DELLA ROSA

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  2. João Marcos Carvalho16 de outubro de 2013 09:41

    As informações do ex-combatente remetem a uma bela viagem pelos tempos belicosos de 1932. O percurso do centro da cidade a então distante Penha, por exemplo, dá uma dimensão do ardor cívico que tomou conta de todas as camadas sociais de São Paulo naqueles dias. O relato do trabalhador saudando a tropa a caminho da linha de frente é igualmente emocionante.
    Um outro detalhe que chama atenção é a evocação de Nossa Senhora Aparecida para proteção comum das partes contrárias em conflito.
    Com todo o respeito, parece que a Mãe de Deus ficou numa saia justa ao ser chamada para intervir por seus filhos que lutavam em trincheiras opostas.
    Faço aqui um apelo ao Ricardo que continue nos presenteando como trechos desse raríssimo e maravilhoso documento, escrito praticamente no calor da hora. Obrigado.

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  3. Trabalho em uma escola na Freguesia do Ó.
    EE. Prof. Milton da Silva Rodrigues. Estamos buscando a valorização do nosso patrono e e celebração de sua memória em um projeto socio-cultural. Ainda mais um patrono tão rico em história e participação civil.

    Prof.Raphael Bueno

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